sábado, 30 de abril de 2011

O feminismo lá de casa


Eu sempre achei o movimento feminista um treco meio estranho. Demorei um bocado para entender para que ele servia e porque tinha surgido e, reconheço, foi um choque! Foi um caso típico de trombada de culturas, só que ao contrário.

Isso porque eu fui criado em um legítimo matriarcado. Ele começou com minha avó, que sempre trabalhou e sempre mandou em casa, e se estendeu para suas cinco filhas, que também sempre trabalharam e mandaram em suas casas. Ah, sim, ela teve um filho, mas ele teve duas filhas, o que acabou com qualquer possibilidade de implantação de um mínimo de poderia masculino na família.

Contribuiu muito para isso o espírito do meu avô, que sempre esteve muito mais interessado nas grandes questões da alma (ele foi seminarista quando jovem e, depois de casado e com todos os filhos, padre da Igreja Católica Brasileira, que aceitava casados) do que nas questiúnculas comezinhas do dia-a-dia, como aluguel, supermercado, conta de luz etc.

Assim minha mãe e minhas tias foram criadas em um mundo em que elas podiam trabalhar dirigir, usar calça comprida, fumar e beber (todas fumavam e bebiam) ou o que fosse. Nenhuma delas conseguiu se manter casada, exceto minha mãe, a mais nova, que achou que era melhor não se casar para não ter o trabalho de se separar depois.

A estrutura familiar em que eu passei minha infância era composta por minha avó, duas tias e uma prima. Da adolescência até os 25 anos, a estrutura muda um pouco: minha mãe, minha avó e uma tia. Em todos os casos eu era o mais novo ou, como dizia minha avó, o último a falar e o primeiro a ficar quieto.

Esse meio também contribuiu bastante para minha aversão a donas de casa. Hoje, depois de muito racionalizar, eu até entendo que possa ser uma opção de vida, vá lá. Mas daí a concordar, vai uma distância grande (os conceitos que se gravam na nossa alma não se curvam a argumentos racionais).

Quando você cresce em um ambiente assim – que era bem bacana -, você não traz para a vida adulta aquela compartimentação comum às pessoas “normais”: coisas que homens devem fazer, coisas que mulheres devem fazer e vice-versa. Trocar resistência de chuveiro, por exemplo. Só fui fazer direito depois de casado. Digo direito porque uma vez, eu tinha uns 16 anos, uma vizinha que morava sozinha bateu em casa e me pediu prá trocar a dela. Claro que eu queimei a única resistência nova que ela tinha.

Pneu de carro eu devo ter trocado umas duas ou três vezes na vida. Até hoje prefiro levar o carro com o pneu no chão até o borracheiro mais próximo. Não só trocar. Um dia a @fkyrillos brigou comigo porque eu perguntei por que ela não levou o carro ao borracheiro e ela disse que era “coisa de homem”. O problema é que eu não sabia disso.

Mas tem o lado bom também. Em diversas entrevistas de emprego já me perguntaram se eu via problema em ter uma chefe mulher. Eu dizia que não e pensava: “meu amigo, você não faz ideia do que é ter uma chefe mulher de verdade”. Também nunca me incomodei em dividir conta, que para algumas feministas um pouco mais radicais sempre foi ponto de honra.

Isso tudo me veio ontem, vendo o casamento real inglês e os comentários femininos em torno da agora princesa Kate. Voltei a estranhar o feminismo, que decidiu tirar férias para babar – de inveja ou encantamento – com o conto de fadas da mocinha.

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